Modelo baseado na fé ensina populações rurais pobres a usar o ofício para sair da pobreza.
Um dia o missionário Canadense Don
Kantel colocou 400
pintinhos em um recinto fechado em
Mieze, aldeia de 20 mil habitantes, ao norte de Moçambique, todas as crianças da aldeia se reuniram para assistir curiosas ao que aconteceria a seguir. Antes da remessa de
pintinhos chegar,
Kantel preparou metodicamente o recinto e explicou aos moradores o processo de alimentação e fornecimento de água aos frangos, bem como a limpeza regular do espaço. Os Moçambicanos não entenderam por que alguém faria todo este trabalho por algumas aves magras. Galinhas correm soltas na África, comendo o que encontram, principalmente
insetos e lixo. Mas ninguém se importa com elas.
Kantel e sua esposa,
Elizabeth, especialista em cuidar da saúde em comunidades, estavam determinados a criar um modelo híbrido para transformar a vida entre as famílias mais pobres da África, através da geração de empregos e de esforços
evangelísticos. Por meio da
Iris Ministries, uma missão para crianças órfãs e vulneráveis, os
Kantels ajudaram a lançar tal modelo em
Mieze. O
projeto reúne agricultura, criação de animais, cuidados de longo prazo a órfãos, educação e uma igreja
recém instalada, tudo de maneira economicamente sustentável.
A maior parte de sua vida,
Kantel foi, por suas palavras, “como um elitista”, um
acadêmico que fundou a
St.
Stephen’s, uma pequena universidade Cristã em
New Brunswick, Canadá. Ele demonstrava pouco interesse no destino dos pobres rurais. Quando pensava sobre a questão da pobreza, argumentava que os pobres provavelmente eram os autores de sua desgraça. Ele nunca imaginou a si mesmo como um “Don Papa” – um cientista político aposentado sujando as mãos no combate à pobreza.
Kantel sorriu ao ver os
pintinhos a solta correndo. Tudo estava indo conforme o
planejado. Mas antes que o dia terminasse, Don e
Elizabeth enfrentaram uma crise. Os ventos começaram a uivar, nuvens de tempestades se formaram e tiveram início as chuvas torrenciais. Um ciclone potencialmente mortal se deslocou do Oceano Índico. Tempestades como essas podem trazer ventos de cem milhas por hora e provocar enchentes
catastróficas. As galinhas estavam presas na chuva fria, assim como seus filhotes amontoados. Seus abrigos ao ar livre ofereciam pouca
proteção.
Kantel temia que a tempestade pudesse aniquilar o
projeto. Correu para dentro do recinto e recolheu alguns
pintinhos. Como deixou o
projeto naquela noite, teve certeza de que a população de frangos remanescente seria dizimada pela manhã, assim como as perspectivas dos criadores de frango.
Ajuda para o comércio – Enquanto
Kantel esperava a tempestade passar em sua casa e de
Elizabeth, próxima da aldeia, sua mente relembrava os progressos
impressionantes obtidos pelas crianças de
Mieze durante os últimos 14 meses. Em 2007, no início do
projeto, cerca de 60 crianças se mudaram para novas casas. Elas eram apenas como muitas outras crianças de Moçambique, abandonadas devido à recente guerra civil, portadoras do vírus
HIV/
AIDS ou vivendo na pobreza extrema. Não possuíam outra coisa se não os trapos esfarrapados que vestiam.
A maioria estava completamente perplexa com seu novo estilo de vida. Nunca haviam dormido em uma cama, comido três refeições ao dia,
acionado um interruptor de luz, ou visto o próprio rosto em um espelho.
“Algumas das crianças foram muito
arredias. Outras muito agressivas”, diz
Kantel. “Todas vieram de contextos de privações inimagináveis, e algumas também foram vítimas de abuso”. Poucos meses depois de se mudar para o complexo, as crianças estavam bem vestidas, bem alimentadas, mais
sociáveis, saudáveis e felizes.
Sempre que
Kantel acordava pela manhã, pedia a Deus que fizesse daquele dia uma oportunidade para ajudar as crianças a se tornarem líderes em sua geração – foi assim que começou sua
ideia para a criação de frangos.
Para a comunidade de
Mieze crescer e prosperar, seus membros precisam aprender como fabricar produtos de qualidade para vendê-los. O comércio, o intercâmbio de bens e serviços através da fronteira, é um meio de combater a pobreza
crônica, no contexto da aldeia. Quanto maior o mercado para o qual se pode vender, mais postos de trabalho podem ser criados.
Moçambique geralmente está entre as dez nações mais pobres do mundo. O país obteve a independência de Portugal em 1975, após 400 anos de domínio colonial, o qual trouxe a escravidão e a discriminação generalizadas. Uma guerra civil teve início e o país caiu nas mãos de uma facção Marxista que
nacionalizou a economia e negociou com a União Soviética. Após a queda desta, em 1991, muitas indústrias foram privatizadas por reformadores Moçambicanos. Mas a economia do país se mantém muito fraca.
A taxa de desemprego é alta, e 80% dos seus 21 milhões de habitantes sobrevivem da agricultura de
subsistência. A maioria dos Moçambicanos vive com uma colheita escassa e sofre com a fome. Enquanto o auxílio global dá lugar à ajuda alimentar e à assistência
emergencial para os Moçambicanos (como fizeram após o Ciclone
Eline, em
fevereiro de 2000), as organizações de socorro geralmente não são preparadas para criar negócios sustentáveis que ofereçam empregos de longa duração.
A Organização Mundial do Comércio (OMS), vendo as limitações dos programas tradicionais de ajuda, organizou em 2005 uma iniciativa chamada
Aid for
Trade (Ajuda ao Comércio). Seu
objetivo era auxiliar os países pobres no “fortalecimento de suas economias, através do desenvolvimento da capacidade produtiva, permitindo assim que exportassem mais”. O aumento do comércio e das exportações oferece um grande potencial para tirar as pessoas da pobreza.
Mas o comércio não é o remédio para todos os males, pois traz problemas que a tradicional ajuda
direta não traz. Por exemplo, de maneira diferente, algumas nações carentes, como o Sudão e o
Quênia, têm fortes exportações (petróleo, café). Mas o sistema de comércio ás vezes deixa os trabalhadores locais soterrados em favor de agências
governamentais e corporações
multinacionais. O governo do Sudão usa 70% de seus lucros com o petróleo para ampliar sua força militar.
Além disso, programas de comércio no contexto das aldeias são difíceis de sustentar, devido a diversos
fatores incontroláveis (guerras, secas e corrupção política) que muitas vezes interrompem o progresso. Mas, se as desigualdades do comércio são minimizadas e tais programas criam raízes, geram postos de trabalho duradouros.
Serra Leoa, com suas exportações de
gengibre, está entre os países Africanos beneficiados recentemente pela ajuda de reforço ao comércio. O
gengibre é utilizado para conferir sabor a uma bebida local, como especiaria na Europa, e usado como um óleo na Índia. Com uma doação de
US$ 100 mil iniciais e três anos de esforço, recentemente, Serra Leoa exportou seu primeiro estoque de
gengibre em vinte e dois anos.
Kantel, depois de ver o que os moradores de
Mieze poderiam realizar, determinou que os frangos e ovos de galinha seriam um bom ponto de partida. Ricos e pobres em todo o mundo consomem por ano mais de 60 milhões de toneladas de ovos de galinha. Mas a África é o segundo menor continente na produção de ovos. Há muito espaço para crescimento. A África do Sul, vizinha de Moçambique, tem a maior economia da África e, recentemente, estabeleceu uma meta de duplicar sua produção e consumo de ovos de galinha.
A próxima geração – Depois de passar a noite sem dormir preocupado com os
pintinhos no ciclone,
Kantel retornou cedo ao
projeto Mieze na manhã seguinte.
As crianças e os funcionários do
projeto moçambicano o saudaram com entusiasmo. Eles permaneceram acordados durante toda a noite no abrigo a céu aberto, secando, aquecendo e protegendo os
pintinhos. Quase todos haviam sobrevivido.
No processo, as crianças tomaram posse do
projeto. Daquele dia em diante, elas – agora com mais instrução – começaram a administrar o galinheiro por si mesmas. Todos os dias sentam no interior do recinto, aguardando com expectativa. Quando um ovo é colocado, elas saltam para pegá-lo e imediatamente o colocam em uma geladeira para vender no mercado local.
A granja agora está em seu próspero terceiro ano de funcionamento. No início de 2008, o primeiro ciclo de produção foi comemorado com uma festa do frango para 500 membros da igreja, além de convidados e moradores de
Mieze.
A fazenda também expandiu sua produção de ovos e fez uma parceria com a
Technoserve, uma instituição de caridade voltada para o desenvolvimento de negócios, para reduzir os custos de alimentação e de material de alimentação. Neste verão, eles dedicarão mais terras para a granja. No entanto, os olhos de
Kantel permanecem fixos no horizonte. Ele disse que as crianças de
Mieze precisarão de empregos e de funções, além de um crescimento da economia, quando completarem 18 anos.
David
Bronkema,
diretor de programas de desenvolvimento na
School of Leadership and Development (Escola de Liderança e Desenvolvimento) da
Eastern University (Universidade do Leste), perto da Filadélfia, disse que gosta do
projeto Mieze porque “ele busca oferecer oportunidades de empregos futuros, o que é um caminho fundamental para aliviar a pobreza”.
O
projeto inclui o desenvolvimento de água potável, um programa de assistência alimentar para outras crianças vulneráveis na aldeia, uma igreja, uma comunidade de saúde e um programa de acesso à escola, além de uma fazenda que a comunidade possa usar para produzir e vender alimentos.
João
Juma, um talentoso Moçambicano fundador de igrejas, incorpora o
caráter Cristão do
projeto Mieze. Seis anos atrás,
Juma começou uma nova igreja na periferia da vila. Desde então, a igreja cresceu 300 por cento, e um novo santuário com capacidade para mais de 500 pessoas está quase concluído. Grande parte do crescimento é devido ao trabalho
evangelístico realizado com crianças não-Cristãs durante o culto matinal de sábado e os ensinos da Bíblia.
O pastor
Juma trabalha junto com os
Kantels para integrarem instruções Cristãs na formação
profissional. Juntos, eles
preveem um momento em que mais jovens poderão explorar suas próprias
granjas ou fazendas de caprinos, leite, queijo e carne.
Para os moradores, trabalhar na agricultura e na pecuária
proporciona alguma
proteção contra o lado negro da globalização, pois seus produtos podem ser consumidos, bem como vendidos no mercado aberto. Este não é o caso do algodão, do ouro e de outras mercadorias que estão sujeitas às oscilações de preços.
Justiça, Emprego e Turismo – Cristãos especialistas em desenvolvimento acreditam que as práticas comerciais injustas ou ultrapassadas muitas vezes trabalham contra os
objetivos da ajuda
direta de caridade.
Os especialistas observam os seguintes exemplos:
• O comércio
internacional movimenta cerca
US$ 10 milhões por minuto, mas hoje os países pobres representam apenas 0,4 por cento do mundo do comércio. As Nações Unidas estimam que as regras do comércio injusto negam às nações pobres cerca de
US$ 700
bilhões por ano.
• O comércio frequentemente funciona a favor dos países ricos e das grandes corporações. Após uma recente negociação comercial preliminar, especialistas estimaram que os países ricos devem ganhar
US$ 141,8
bilhões por ano, enquanto a África como um todo deve perder
US$ 2,6
bilhões por ano.
• Subsídios agrícolas nas nações desenvolvidas encorajam a
superprodução de certos produtos alimentares como o arroz e o trigo. O excedente é geralmente
objeto de
dumping nos mercados mundiais, derrubando os preços.
Bronkema disse que quando fala com os evangélicos, sempre pergunta: “O que você acha que causa a pobreza?”. Pouquíssimos mencionam as empresas ou a geração de renda. “A maioria não percebe que não existem empregos”.
Kantel acredita que a pobreza
crônica em lugares como Moçambique não será derrotada a menos que os pobres tenham um melhor acesso aos recursos e aos mercados. O comércio agrícola é crucial. O comércio de produtos de origem animal cresceu de
US$ 55
bilhões em 2000 para
US$ 93
bilhões em 2006. Os países em desenvolvimento representam apenas 20 por cento das exportações mundiais desses produtos. Países como Moçambique tem espaço para aumentar sua participação.
Depois de olhar para possibilidades de comércio para além dos ovos, frangos, carne de bode, manga e limão,
Kantel e a
Iris Ministries decidiram explorar o turismo,
setor de maior crescimento da economia de Moçambique. O rendimento do turismo para 2005 tem crescido 37% em relação ao ano anterior. Eles estão fazendo planos de criação de pequenas empresas e lojas para atender aos turistas e à indústria de serviços.
Isso irá ao encontro do seu desejo de
sensibilizar e ampliar o comércio em novas áreas.
Com milhares de
kilômetros de costa
intocada e uma fauna exótica, as perspectivas para o crescimento do turismo são enormes. Este
setor traz consumidores e
possibilita o intercâmbio estrangeiro na economia de um país em desenvolvimento.
Através de programas de formação
profissional, a
Iris Ministries está preparando jovens órfãos para
atuar nestes
setores. Com a consolidação das leis e as garantias
empregatícias, muito mais pessoas podem ter sucesso em fazer parte das 32 mil que já trabalham com o turismo.
O
objetivo de
Kantel é que mais Cristãos optem por passar as férias em países em desenvolvimento. Mundialmente, o turismo baseado na fé, incluindo missões de curto prazo, gera cerca de
US$ 10
bilhões para a indústria por ano. Programas oferecendo uma viagem missionária, que incluem um roteiro turístico, já existem no
Quênia e na República Dominicana.
Nesses programas, os visitantes Cristãos têm uma oportunidade bem definida de
complementar o
voluntarismo com as férias, onde poderão encontrar, no menu do café da manhã, ovos frescos vindos de um vilarejo como
Mieze.
Kantel não pode prever um tempo em que a ajuda ao comércio apagará a necessidade de programas de auxílio
direto, mas ambas podem
complementar-se. Ele disse “a ajuda prudente e equilibrada, que atende às necessidades imediatas e correntes e também às metas de longo prazo e desenvolvimento, é realmente um componente essencial no posicionamento de uma nação para ser um competidor no mercado
internacional”.
Cassandra Soars é escritora e vive em Moçambique. É repórter
internacional da
Christianity Today.
Atualmente é mantida por doações do Ministério John
Stott.
Traduzido por
Joanna Brandão
Tags:
africa, emprego, fé, Missões
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